terça-feira, 28 de maio de 2013

O Querer e o Ainda Querer


O ainda querer é diferente do querer, estive pensando.

O querer é dotado daquele primeiro impulso, da paixão do primeiro momento, o segundo inicial do vento fresco e revigorante na face, no peito, o primeiro jato de água gelada da ducha, o desespero, incontido, o choro, o grito agudo, o soluço, a fome. No querer, ajoelha-se, ora-se. É o momento do pelamordedeus. É a fase das loucuras das quais vai se arrepender, ou se envergonhar. O querer leva à morte, ao assassinato, ao suicídio, à greve de fome, à casmurrice, às fugas, sublimações, porres galácticos, drogas pesadas.

O ainda querer é o segundo momento. É morrer de frio, de inanição, sem perceber. Cansar-se, sem trabalhar. É querer, ainda, mas, querer apesar de. É ter o propósito substituído pelo conformismo, o desejo, pela melancolia. O ainda querer tem uma pitada de morte. Não da morte por facada, coisa peculiar do querer, mas, da morte por velhice, por cansaço, por espera. Não chora, só anda triste pelas ruas da cidade plúmbea, sente o frio, de outono, não de inverno. Não se ajoelha, senta-se. É banho morno pra frio, não desespera, só mantém um certo incômodo. O ainda querer não é ter aquilo como primeiro pensamento ao acordar, último antes de dormir; é nem pensar, mas, sentir o peso de âncora daquilo no peito. Uma dor leve, que às vezes mal se percebe. Unha encravada. Dentes sensíveis, o cotovelo que resolveu não estalar naquela manhã. Não é o chefe que reclama do seu atraso quando chega, é o colega que sorri pra você, olhando de rabo de olho pro relógio. É tomar apenas uma dose de uísque, pra relaxar, antes de dormir. O ainda querer é velado, é calmo, não mata em curto prazo. O ainda querer está tão longe quanto o querer do queria, do não querer, do já quis. O ainda querer é o querer com desalento, é o querer mais triste. É o querer, mais forte e sem esperança.

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