quarta-feira, 8 de maio de 2013

No momento, você não quer parecer inconveniente. Então, não toca muito, pra não sufocar. E tenta uma discrição, que não queria ter, pra não incomodar. E dá um espaço, a contra-gosto. E não pede mais um minuto, ou um beijo. Demora trinta segundos a mais no banheiro. Não chega cinco minutos antes, por que se perde. Ou aproveita pra abastecer. No momento, não parece nada demais. Você nem imagina a falta do inexistente no seu futuro, que será uma belíssima porcaria. Só que depois da morte, seja ela a morte que for, a morte da morte ou a morte da ausência, fica o arrependimento da alma, do irrecuperável. O vazio do que foi perdido. O impossível preso no passado. O grito, a lágrima, o toque, uma gota de saliva na boca errada. O desespero do inefável. O absurdo, irreversível, da falta de uma última palavra que ficou presa em sua língua covarde. Era só mais um segundo e sua vida seria diferente com aquela lembrança que você não tem e nem nunca terá.  E depois, angústia. E depois, o desalinho dos astros. E a sua culpa. E a sua vontade patética de ser correta, que sempre foi mesmo uma grande merda. E depois, mais morte. E mais nada.

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