domingo, 26 de maio de 2013



A vida me passa corrida, nessa velocidade absurda, incontrolável, desmedida e assisto à essa passagem, aos dias, noites, sol nascendo, depois, seu poente, fases da lua, com o nariz encostado no vidro de um trem. Vejo a vida, o quotidiano de tudo e do nada, essas coisas imbecis e pequenas, a totalidade da desimportância, a poesia da morte, que ronda, sensual, as vidas displicentes e distraídas do único fim que todos terão: ela mesma, feminina, sempre sinuosa e tensa. Vejo tudo num embaçamento morno, avermelhado, rude. O embaçamento do meu próprio desconhecimento. Toco os limites da minha consciência espacial e é como um choque perceber o tamanho do meu não-conhecimento dos seres, das coisas, da história, de mim mesma. Sou minha doce estranha. Sou minha algoz, aprisionada, a essa ignorância obscena. Toco e não sei. E o não saber é cansaço. A desimportância é cansaço. A imaginação é cansaço. E por isso sinto o desapego enorme a mim, minha suave e cruel desconhecida de todos os dias. Sou tudo, o meu todo, e o nada do meu limite. Meu braço curto, meus olhos míopes e tristes, meu coração sempre entregue a algum excesso, minha cabeça obtusa e limitada pela única perspectiva que entendo e pela qual percorro a razão em minha existência pequena, como todas as outras: a minha. E assim é sempre e não há o que ensinar ou aprender: o que está dentro, já é o conhecido, basta sentar-se e pensar-se e tudo está lá; e o que não está, não há como explicar, é o ininteligível, aquilo que está no alto da prateleira, além dos olhos, fora do alcance do braço. Vejo o tudo e tudo isso é bem pouco mais que nada. O nada de instantes que não se podem conservar, que são isolados, inacumuláveis, pequenos canalhas, por princípio; pelo mesmo princípio que os cachorros ladram ou abanam suas caudas. E meu tudo, quase nada, não passa de um instante, menos de um milésimo de segundo, pois o instante é a menor divisão de todas as coisas e é tudo o que existe: pouco mais que o nada. Bem pouco. E é tudo. Em toda a velocidade.

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