Já fui de não ter palavras,
nem respostas.
Tive medo.
Hoje enfio tudo na boca.
Trago a vida e o tempo.
Já fui de fugir,
Agora dou o próximo passo,
sem hesitação nos pés
nem na alma.
Gosto do frio na barriga,
do passo seguinte,
onde não se encontra mais chão.
Bebo as lágrimas da dor
como a libertação do mar
bravio e pungente em mim.
Sou de espuma,
sou de pedra:
pedra-pomes.
Sou de pedra vagabunda
e você, diamante.
Sou pimenta-de-cheiro:
ameaça e não mata
coisíssima nenhuma.
Sou planta molhada,
Que pisada esboroa.
No outro dia está lá de novo,
brotando.
Maria-sem-vergonha,
erva-daninha.
Sou mosquito que não morre,
sou besouro,
sou de aço,
mas, não sou de nada.
Queria ser essa pequena,
só que pequena
não posso mais ser...
Obrigaram-me a crescer.
Sou criancinha besta
que pede "não vá embora",
olhando pra uma cadeira vazia,
estendendo suas mãos absurdas.
Sou o reflexo assustado
do meu próprio espelho
e tão estulta
que não entendo nada
mesmo tendo resposta pra tudo.
Minha língua é insensata,
incontrolável.
Só minhas mãos dizem a verdade.
Sou o dia que amanhece
depois da noite infame.
Sou o dedo que seca a lágrima,
o nariz que funga
e a cabeça que diz "chega".
Sou o coração selvagem
que insiste na vida.
Sou a centelha de esperança,
sou ventre prolífico e trancado.
Sou rabo de lagartixa.
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