terça-feira, 16 de abril de 2013

Charada

Não mudo nem minha vida,
como vou a tua sossegar? Só cegar. E só.
Vou enxergar pela ponta do dedo.
O que explora, o que invade, o inútil e o que cheira.
Só poupo o de chupar, pra hora de dormir.

Mais nada.
És minha charada.

Boca de leão não sossega,
vira flor carnívora. De carne mal-passada.
Meu corpo inteiro é língua. Alienada. Que maçada!
Sem-jeito, sem-vergonha, toda-toda.
Anafilática da falta da tua saliva. Socorro!
Só corro! Que morro!

Tens a juba cheia e os olhos sorridentes.
E é quase que só de dentes. Dementes.

Dedos seus, intransigentes. E eu, plangente.
Sente a falta tua meu cotovelo incongruente.
Liga pra ele no Natal, que tal?
Dá cá um rugido, te devolvo um gemido.
Não tem nada que já não seja ou será, um dia, ido.

Comido. Atrevido. Bebido. Cuspido. Lambido.
Guardo o teu gosto em uma papila saudosa.

Somos de carne e líquido, toda a carne líquida.
Do líquido que se derrete no calor do inferno. Interno.
Corpo infernalmente quente, eloquente, enlouque-sente.
Em forno. Des-inverno.
Sangue que Dante te mandou de Averno.

Levo o último anúncio grunhido no ouvido
e sinto o peso da mão no meu quadril preterido.

O que me deu de beber com gelo
virou célula de cabelo.
Puxei o fio e pus no quadro,
bem ao lado do diploma de mestrado.
Sim, sim... Regozijo-me! Agora és meu.
E assim termina a estória de Rometa e Julieu.

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