E você
morre de medo e frio, metido no meio de iguais, outras gentes, sempre iguais,
caminhando todos como mortos-vivos, comendo, defecando, pintando a casa,
trocando de carro, saindo pra trabalhar, fazendo escolhas, mais comumente,
escolhas ruins. E você continua marchando, movimentando-se, pois "parar é
morrer", você pensa; no entanto, continua sem saber pra onde vai. E eu ando no
meio de gente como eu também, e assim como todos, não tenho bússola, meus olhos não
sabem ler estrelas. Diferentemente dos outros, carrego em minha mão uma
ampulheta. A noção da existência inútil e insignificante me revela que estamos
todos perdidos, seguindo sem direção, empurrando-nos uns aos outros. E você
continua com medo e com frio e ainda assim, com tantas certezas! Não se dá
conta. Ninguém se dá conta. Essa gente toda que anda conosco, tem tanta
opinião, não é? E parar é morrer, continuar é morrer, a ampulheta não mente.
Você coleciona medos, suas juntas se endureceram de frio e nunca mais quis
abrir seu coração. Tanto faz, estamos todos perdidos, não existe inocência nem
paraíso. Deito a ampulheta ao chão, como todos os outros já fizeram. Piso-a.
Não importa, estamos todos perdidos.
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