Ela ligou o som, desejando que ele se fosse. Ele não se foi.
http://www.youtube.com/watch?v=UYXrBt_XMZU
- Você não entende, não é? – disse ele, insistente, pousando suas mãos sobre os braços dela e curvando-se um pouco, enquadrando os olhos nos dela.
- Eu entendo, perfeitamente. Você que se recusa a entender. – respondeu, baixando os olhos, esquivando-se do toque e acendendo mais um cigarro. – Você é um cara legal, mas, eu não quero mais.
- Mas, eu te amo.
- Eu sei. - respondeu, com um sorriso amargo. Jamais respondera outra coisa além de "eu sei" e "obrigada".
- Então, por que não? – perguntou ele, reaproximando-se.
- Por que eu amo outra pessoa. – respondeu, afastando-se, mais uma vez. - Já te disse isso. Você me obriga a te magoar de um jeito que eu não queria e que você não merece.
Ela serviu-se de outro escocês, sem gelo, e tomou em um único gole. Fez um gesto oferecendo. Ele nem recusou e continuou falando, em tom indignado, enquanto ela se servia de outra dose.
- Mas, você também disse que ele não quer você.
- Isso não faz nenhuma diferença. Eu continuo não amando você. – disse, dando um trago profundo e tentando fazer um círculo com a fumaça, sem êxito.
- Então você vai ficar sozinha?
Ela deu de ombros e respondeu:
- Qualquer razão que não seja o amor é a razão errada para estar com alguém. Medo da solidão, inclusive.
Ambos sentaram-se no sofá. Ela agarrou uma almofada e pousou uma mão no ombro dele, dando um tapinha carinhoso.
- Desculpe, querido. Desculpe, mesmo, mas, não dá pra continuar.
- E como eu vou fazer pra te esquecer?
- Se descobrir um jeito, me conte.
Ele riu, tristemente, olhando-a nos olhos. Ela olhava o uísque.
- Eu queria saber o que esse cara tem de tão especial.
- Eu também. – ela respondeu, rindo uma gargalhada e saindo do transe. – Eu também, acredita?
- Se você não sabe, como pode dizer que o ama? – agora seu tom era realmente colérico.
- Meu bem, conhecer só pode partir de amar. Nunca o contrário.
Ele a fitou, sem entender.
- Sei o que você está pensando: que vivo com base nas teorias e máximas que eu mesma invento pra justificar minha insanidade. – disse ela.
Ele continuou olhando, ouvindo e não entendendo. Ela prosseguiu:
- Só que uma coisa é certa: ficarmos discutindo aqui, não vai mudar o fato de que acabou entre nós.
Ela ergueu-se, saiu para a sacada, terminou o escocês em um gole derradeiro, apoiando os cotovelos no parapeito e acendendo mais um cigarro. Ele a seguiu.
- Eu gosto de você, sabe? Estava pra te dizer que torço para que encontre um amor como o que eu sinto por ele. Mas, tenho dúvidas se isso seria te desejar o bem. Então, torço só para que, aconteça o que acontecer, você não sofra demais.
- E todos os planos que fizemos? Me fala! E tudo o que planejamos? A casa na serra, as viagens, os filhos? – indagou ele, um pouco alterado, pontuando as frases com socos no parapeito onde ela apoiava o cotovelo enquanto fumava.
- Olha, fica calmo. Os seus planos, são seus planos e você deve continuar com eles. Mas, se pensar bem, vai ver que sempre foram seus, nunca nossos. – sussurrou ela, segurando seu antebraço e apontando para o céu. - Está vendo essa Lua? Linda, né? Adoro a Lua aqui do décimo quinto.
Ele ficou admirando aquele rosto, que achava que amava, sem entender nada. Ela tinha o rosto bonito, iluminado pela Lua, e ele continuou encarando-a, enquanto ela continuava a fumar e a falar, sonhadora, contemplando a Lua do Céu.
- Se eu dissesse pra você que gostaria de terminar como Ismália, você pensaria em fazer isso por mim? Ou me convencer do contrário?
- O quê? Do que você está falando?
Ela riu, uma risada como um deboche abatido. Lançou o cigarro pra longe. Virou-se pra ele, dando-lhe um abraço e colando a boca em seu ouvido.
- Entende agora por que eu jamais poderia te amar?
Em uma fração de momento, jogou-se do décimo quinto.
***
Horas mais tarde, em uma delegacia, o delegado pergunta, pela quarta vez:
- O que mesmo que você contou que ela disse antes de pular?
- Que queria acabar como a Amália, uma coisa assim, não lembro bem.
- Amália? Que Amália? Não seria a Amélia?
- A Amélia se mata?
- Sei lá. Acho que ela era mulher de verdade, não doida.
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