segunda-feira, 17 de junho de 2013

Ismália



Ela ligou o som, desejando que ele se fosse. Ele não se foi.


http://www.youtube.com/watch?v=UYXrBt_XMZU


- Você não entende, não é? – disse ele, insistente, pousando suas mãos sobre os braços dela e curvando-se um pouco, enquadrando os olhos nos dela.

- Eu entendo, perfeitamente. Você que se recusa a entender. – respondeu, baixando os olhos, esquivando-se do toque e acendendo mais um cigarro. – Você é um cara legal, mas, eu não quero mais.

- Mas, eu te amo.

- Eu sei. - respondeu, com um sorriso amargo. Jamais respondera outra coisa além de "eu sei" e "obrigada".

- Então, por que não? – perguntou ele, reaproximando-se.

- Por que eu amo outra pessoa. – respondeu, afastando-se, mais uma vez. - Já te disse isso. Você me obriga a te magoar de um jeito que eu não queria e que você não merece.

Ela serviu-se de outro escocês, sem gelo, e tomou em um único gole. Fez um gesto oferecendo. Ele nem recusou e continuou falando, em tom indignado, enquanto ela se servia de outra dose.

- Mas, você também disse que ele não quer você.

- Isso não faz nenhuma diferença. Eu continuo não amando você. – disse, dando um trago profundo e tentando fazer um círculo com a fumaça, sem êxito.

- Então você vai ficar sozinha?

Ela deu de ombros e respondeu:

- Qualquer razão que não seja o amor é a razão errada para estar com alguém. Medo da solidão, inclusive.

Ambos sentaram-se no sofá. Ela agarrou uma almofada e pousou uma mão no ombro dele, dando um tapinha carinhoso.

- Desculpe, querido. Desculpe, mesmo, mas, não dá pra continuar.

- E como eu vou fazer pra te esquecer?

- Se descobrir um jeito, me conte.

Ele riu, tristemente, olhando-a nos olhos. Ela olhava o uísque.

- Eu queria saber o que esse cara tem de tão especial.

- Eu também. – ela respondeu, rindo uma gargalhada e saindo do transe. – Eu também, acredita?

- Se você não sabe, como pode dizer que o ama? – agora seu tom era realmente colérico.

- Meu bem, conhecer só pode partir de amar. Nunca o contrário.

Ele a fitou, sem entender.

- Sei o que você está pensando: que vivo com base nas teorias e máximas que eu mesma invento pra justificar minha insanidade. – disse ela.

Ele continuou olhando, ouvindo e não entendendo. Ela prosseguiu:

- Só que uma coisa é certa: ficarmos discutindo aqui, não vai mudar o fato de que acabou entre nós.

Ela ergueu-se, saiu para a sacada, terminou o escocês em um gole derradeiro, apoiando os cotovelos no parapeito e acendendo mais um cigarro. Ele a seguiu.

- Eu gosto de você, sabe? Estava pra te dizer que torço para que encontre um amor como o que eu sinto por ele. Mas, tenho dúvidas se isso seria te desejar o bem. Então, torço só para que, aconteça o que acontecer, você não sofra demais.

- E todos os planos que fizemos? Me fala! E tudo o que planejamos? A casa na serra, as viagens, os filhos? – indagou ele, um pouco alterado, pontuando as frases com socos no parapeito onde ela apoiava o cotovelo enquanto fumava.

- Olha, fica calmo. Os seus planos, são seus planos e você deve continuar com eles. Mas, se pensar bem, vai ver que sempre foram seus, nunca nossos. – sussurrou ela, segurando seu antebraço e apontando para o céu. - Está vendo essa Lua? Linda, né? Adoro a Lua aqui do décimo quinto.

Ele ficou admirando aquele rosto, que achava que amava, sem entender nada. Ela tinha o rosto bonito, iluminado pela Lua, e ele continuou encarando-a, enquanto ela continuava a fumar e a falar, sonhadora, contemplando a Lua do Céu.

- Se eu dissesse pra você que gostaria de terminar como Ismália, você pensaria em fazer isso por mim? Ou me convencer do contrário?

- O quê? Do que você está falando?

Ela riu, uma risada como um deboche abatido. Lançou o cigarro pra longe. Virou-se pra ele, dando-lhe um abraço e colando a boca em seu ouvido.

- Entende agora por que eu jamais poderia te amar?

Em uma fração de momento, jogou-se do décimo quinto.



***



Horas mais tarde, em uma delegacia, o delegado pergunta, pela quarta vez:

- O que mesmo que você contou que ela disse antes de pular?

- Que queria acabar como a Amália, uma coisa assim, não lembro bem.

- Amália? Que Amália? Não seria a Amélia?

- A Amélia se mata?

- Sei lá. Acho que ela era mulher de verdade, não doida.

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