domingo, 3 de março de 2013
O Tempo
Tentei prender o tempo em 04:04. Tão fugaz quanto em todos os outros minutos, não se quis prender. 04:05. 04:06. O tempo onisciente, sempre leviano, não me respeita. É obscenamente indiferente às minhas indagações. E me entrego a sua leviandade, como me entrego ao tédio. O amanhã é o pernilongo que ouço e não encontro. Reviro o quarto, não o encontro, nem com a visão nem com o faro. Vou ao banheiro, lavo o rosto e me assusto com o reflexo ao encarar o espelho. Jovens olhos borrados e longos cabelos desgrenhados. Estava esperando uma cara enrugada e desdentada numa moldura mórbida de cabelos brancos e ralos. Toco meus dentes com a ponta do indicador direito. Mordo. Estranho, esse corpo não é meu. Ainda numa viagem de ácido. Apago a luz e deito-me e não importa quantos fios tem meus lençóis, ouço o zumbido do amanhã novamente. E ele me toma o sangue enquanto sonho sem sono. 04:38. 05:05 e tentei prender o tempo. A obsessão insone. Sinto o cheiro dos pássaros abrindo seus olhinhos malvados e se preparando para cantar. Só pra me lembrar que não dormi e que já é hoje. You, fuckin' birds, are not supposed to be here, in the big city. Live me alone, for my love's sake. Como eles são pequenos canalhas sádicos não se importam e soltam a voz. Abafando o zumbido do amanhã.
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