quinta-feira, 27 de março de 2014


Certo tempo, moramos em uma casa, em um bairro com nome de anjo. Os gatos gostavam de trepar em nosso forro. Faziam sons terríveis. Gosto de gatos e não me importo com suas trepadas. Mas, me reservo o direito de preferir que eles não trepem por perto, quando não estou trepando, e sim, tentando dormir. Pura inveja. Eis que, dessas trepações incessantes, uma gata ficou prenhe e pariu no forro. E morreu no parto, ela e os filhotes. Descobri numa noite, ao ir ao banheiro e acender a luz, quando vi pingar sangue do teto no chão do banheiro. Aquilo bem que me pareceu um filme de terror, acordei a casa toda e não dormi mais. No dia seguinte, fez um sol de rachar e meu pai, que sempre foi um virginiano apressado e exigente com o compromisso alheio, mas, um tanto quanto procrastinador com seus próprios, chamou alguém pra tirar os gatos mortos do forro já era mais de meio-dia. Minha mãe, coitada, passou o dia, ou melhor, os dias seguintes, tentando perfumar a casa e tirar o fedor insuportável de gato podre ao qual ficamos submetidos.

Acontece que hoje, quinze anos depois, ainda sinto cheiro de gato podre quando experimento certos perfumes.

Não importa que você não queira se lembrar de algumas coisas. Há algumas delas que ficam impregnadas, como cheiro de gato podre, na sua alma. Sei que na próxima vida não me lembrarei mais da história, mas, continuarei me remetendo a gatos em putrefação quando sentir certos perfumes.

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