Certo tempo, moramos em uma casa, em um bairro com nome de
anjo. Os gatos gostavam de trepar em nosso forro. Faziam sons terríveis. Gosto
de gatos e não me importo com suas trepadas. Mas, me reservo o direito de
preferir que eles não trepem por perto, quando não estou trepando, e sim,
tentando dormir. Pura inveja. Eis que, dessas trepações incessantes, uma gata
ficou prenhe e pariu no forro. E morreu no parto, ela e os filhotes. Descobri
numa noite, ao ir ao banheiro e acender a luz, quando vi pingar sangue do teto
no chão do banheiro. Aquilo bem que me pareceu um filme de terror, acordei a
casa toda e não dormi mais. No dia seguinte, fez um sol de rachar e meu pai,
que sempre foi um virginiano apressado e exigente com o compromisso alheio,
mas, um tanto quanto procrastinador com seus próprios, chamou alguém pra tirar
os gatos mortos do forro já era mais de meio-dia. Minha mãe, coitada, passou o
dia, ou melhor, os dias seguintes, tentando perfumar a casa e tirar o fedor
insuportável de gato podre ao qual ficamos submetidos.
Acontece que hoje, quinze anos depois, ainda sinto cheiro de
gato podre quando experimento certos perfumes.
Não importa que você não queira se lembrar de algumas coisas.
Há algumas delas que ficam impregnadas, como cheiro de gato podre, na sua alma.
Sei que na próxima vida não me lembrarei mais da história, mas, continuarei me
remetendo a gatos em putrefação quando sentir certos perfumes.
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